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segunda-feira, 24 de maio de 2010

Hannah - primeiro episódio

Hannah percorria o caminho com desembaraço e nem olhava onde colocava os pés. Os bosques eram-lhe familiares e muitas vezes já os tinha palmilhado de lés-a-lés. Aproximava-se do riacho onde, tantas e tantas vezes, tinha pescado em criança com os seus irmãos. Passou a ponte e chegou ao início da vila. O senhor Thomas varria o patamar em torno da taverna e bisbilhotava as actividades dos vizinhos. Riu-se, o velhote não tinha remédio! Porém, a senhora Bertha estava disposta a dar-lhe, se algum dia ele percebesse finalmente os seus sentimentos! Enfim, os amores da vila eram um enredo fabuloso para Hannah. À noite, sob a luz do candelabro, na sua escrivaninha do quarto, gostava de redigir estas histórias de amores correspondidos ou não. Adorava as festas de casamento no jardim do centro, os bailaricos de convívio e as barraquinhas de comida. Um dos eventos que mais adorava ocorria no verão e trazia uma dinâmica sem paralelo à vila. Era o dia do leilão! Neste, acontecia de tudo um pouco. Os produtores locais ofereciam as suas safras, produtos caseiros e, às vezes até objectos pessoais, de modo a serem licitados e angariarem dinheiro para a junta de freguesia. Era um dia fabuloso! As pessoas juntavam-se todas no largo central, perto do coreto, onde estava o presidente da junta com o microfone na mão a leiloar. Várias cadeiras eram preenchidas pelos primeiros a chegar ao local, sobretudo os mais velhos. Outros, percorriam as bancadas de mármore e estancavam, na dúvida, entre escolher uma fartura, um sonho, uma bifana, um prego, uma água, ou uma cerveja. As crianças corriam e saltavam por todos os lados, perseguiam os cães que, pacientemente, perdoavam-lhes as «maldades».

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Rewind


Ivone, encontras-te sozinha naquela casa abandonada, cuja escadaria ainda te assusta e relembra o passado. Vislumbras os momentos vividos intensamente e aos quais não deste o devido valor outrora, agora sim. Sentes-te leve e assombrada, aqui e ali. Rodopias, mas não necessariamente no sentido dos ponteiros do relógio. O candelabro oscila e quase sentes o tremor da terra debaixo dos teus pés. O piano ainda lá está, ao canto, esperando o roçar dos teus dedos. Toca-lhe. Faz-lhe o obséquio. O ecoar da música pelas divisões oferece-lhes mais do que luminosidade: dá-lhes vida. O ladrar de um cão, ouve-se de longe e espreita pela janela entreaberta. O vento sacode a poeira dos livros e dos sofás. Os panos queimam-se na lareira. A cozinha estremece de desejo e pede-te um prato só. Só para voltar a sentir o teu cheiro, o teu perfume, o teu corpo a movimentar-se e a remexer nos tachos e panelas. A adega, acompanha-a no mesmo intenso anseio. Quer que tu abras a garrafa de vinho do porto e faças o brinde:
- A nós, a quem gosta de nós e o resto que se ….

terça-feira, 9 de março de 2010

Caixa de fósforos



Foto: Private Investigation_ Paulo Almeida

Maria está sentada à escrivaninha, remexendo na pilha de papéis e procurando em vão o recibo que falta para o IRS. Ao canto, a chávena de café espera pacientemente. Os óculos pousados, sentindo-se constantemente negligenciados. No cinzeiro, amontoam-se as beatas. A sala exala uma temperatura amena, envolta numa neblina de fumo expelida pelo tabaco. Nem dá conta do facto. Já lhe é natura.
Pensa na caixa de fósforos. Ele desaparecera na mesma. Sente falta do calor. A semana que se avizinha, reserva-lhe turnos extenuantes. Tenta abstrair, embrenhando-se na leitura de um livro que seja. A sua agitação interior e permanente, acaba por arruinar o seu ensejo: aquele é o seu calmo lugar, a sua concha, a sua almofada, o seu incenso, o seu xanax.
Katie Melua escolta os seus pensamentos. A música joga a figura parental na sua vida. Apoio no luto e na alegria. Ultimamente, tem-se apaixonado cada vez mais por jazz. Mas de tudo escuta um pouco.
Espreita pela janela: as nuvens afastam-se num burburinho pouco ritmado. Abrem-se brechas e os raios espreitam constrangidos e com receio da chuva, senhora e rainha da época. Wet, wet, wet…
Sai de casa e enterra os pés na areia, curiosamente, já seca. Desenha o contorno do pé direito e rodopia pelas dunas, sentindo o vento e a brisa do mar baterem-lhe na face. Respira profundamente e sente o seu coração a ganhar vida.
Perscruta o horizonte, ao longe a esplanada. O sol aconchega as cadeiras e as mesas. Vai no seu encalço e já esplendorosamente sentada, pede um alto douro com um travo de limão.
A caixa de fósforos não lhe abandona o entendimento. Acena na direcção das amigas que acabam de aparecer no seu campo de visão. As gajas! Ri-se. Seres únicos que, tal com dissera Cícero, não existem para serem compreendidas, mas antes para serem amadas. Muitos Deles não sabem disso, obviamente. Elas sabem, certamente. Se necessário, até brincam com o facto.
Maria sabe, com toda a certeza, mesmo tendo sofrido no passado. Tivesse sido aberta a caixa de fósforos três anos antes e tudo seria hoje bem mais claro! Ele desapareceria, na mesma, sim. Mas desta vez, Para Todo O Sempre.


domingo, 18 de outubro de 2009

Cadáveres


Esperava pacientemente pela sua chegada. Olhou para o relógio. Tinham combinado às 19h. Verificou outra vez o seu bloco de notas: « Torino’s, 19h». Istambul fervilhava de movimento. Perscrutava as faces de quem passava e procurava, em vão, um sinal. Tinham-lhe dito que dispunha apenas de 10 minutos para a transacção. O tempo começava a escassear.
Como era mesmo o seu nome? Clara? Branca? Bem, era ruiva, isso era um facto. O seu rosto aparentava uma certa fragilidade, mas sabia ser uma falsa aparência. Era perita em máscaras. Não hesitava no gatilho. Matara impiedosamente o assassino do seu marido e filhos. Tinha que apressar-se, o relógio mostrara-lhe o atraso.
Ei-lo. Barba de dois dias, cabelo desgrenhado e olhos pretos desconcertantes. Enfim, chegara a hora. Fez-lhe sinal. Aproximaram-se e trocaram um aperto de mão. Já tinha o que viera buscar. O seu punho fechou-se com força. Lamentava o afastar apressado, porém nada podia reter o seu passo. Lembrou-se, todavia, das suas últimas palavras:
- Não posso, tenho trabalho para fazer.
Que culpa tinha, se os cadáveres falavam consigo? Ainda esgaravatava no deslindar desse trabalho. Sentia-se perto da resposta. Vestígios, pistas, dicas de antigos amigos e colegas. Desconfiara sempre de algo, contudo combatera o seu instinto demasiadas vezes. No fundo, receara a verdade. Não quisera enfrentar a realidade, pois era pior do que imaginara em mil pesadelos. Mesmo não tendo ido ao cerne da confirmação, pouco faltava já para atestar as suas suspeitas.
Ele achava que era um desperdício, ao mesmo tempo que uma loucura. Não augurava nada de bom para ela. Compreendia a sua revolta e luta. Eram até certo ponto, mais do que justificadas. A vida tinha-lhe sido madrasta. Tão jovem e detentora de uma cara que revelava vincadas marcas de sofrimento. Assemelhava-se a um espelho, onde via reflectida a sua alma.
Deslocava-se em tumulto, sentindo o acelerar do coração. Prestes a atingir o seu target. Pressentiu-os antes de a verem. Escondeu-se no vão de uma porta. Passaram a correr, dividindo-se pelas várias ruelas. Respirou profundamente. Podia prosseguir, porém colidiu com ele!
- O que fazes aqui? – perguntou-lhe num sussurro.
– Vim ajudar-te e não digas nada, porque não vou desistir.
Olhou-o fixamente e leu nos seus olhos que era verdade, estava irredutível. Caminharam em silêncio e, num instante, tinham atingido o Bósforo. Os homens no barco já esperavam pela encomenda. Fez-lhes o sinal acordado. Atirou-lhes o pacote e virou as costas. Já terminara a primeira etapa. A partir de agora só tinha que aguardar pelas indicações seguintes. Olhou-o de soslaio: parecia calmo e os seus passos acompanhavam-na.
- O que vais fazer?
- O que os solitários fazem: seguir e auxiliar os seus semelhantes.
Sorriram, ambos olhando para o chão. A vida continuava.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Travesti ou transexual?


I think I am becoming a man. Seriously, I have been wondering if I deeply have a man stocked in my body. Lately, I have been asked several times, by some female friends, about some man reactions, talks and acts, whatever. Honestly? I sadly don’t answer like them expected to. Maybe it’s because I turned to cold, after having many bad experiences. The last time I showed some glimpse of female fragility, I took a pair of skates. Or maybe because I don’t let myself being, what I am used to be, to not be hurt again. Who knows? I want to recover my female body, but it’s turning a full-time job.

domingo, 28 de junho de 2009

Penélope


Penélope sonhava com o circo desde criança. Tinha assistido várias vezes, enquanto criança, aos espectáculos que por altura do Natal apareciam na sua terra. Eram uma alegria! Seu pai costumava brincar, nessas ocasiões, sobre o grande acontecimento. Dizia que não podia estar constipada, senão não ia ao circo.

- Se espirras, não vais ao circo! – Dizia.

De todo o espectáculo, o seu número preferido era o dos malabaristas. Ao contrário das outras crianças, cujo número preferido era o dos palhaços, detestava aqueles narizes vermelhos e aquelas vestes de várias cores: os seus sorrisos assustavam-na e o seu aspecto lembrava-lhe seres maquiavélicos.

Também não apreciava os números que incluíam animais, pois achava uma crueldade atroz submetê-los a um espaço confinado e a demonstrações de “habilidades” ensaiadas, à custa de engodos e suborno alimentar.

À noite, após o regresso a casa e já na sua cama, fantasiava com o circo. Imaginava-se com asas negras a segurarem estranhamente a sua pseudo saia, collants às riscas e sandálias altas que destacavam a sua silhueta. Uma cartola repousava no alto da sua cabeça e conferia-lhe o título de fada do rock. A sua voz anunciava a presença de contorcionistas e emanava o mistério da penumbra que envolvia o espaço.

Mais tarde, acabou por apreender o misticismo que a atraía ao circo. Tudo era ilusão. Uma paragem no tempo e no espaço que, ao crescer, foi desaparecendo e revelou-se uma reminiscência mágica. Porém, ainda prevalecia no seu íntimo o desejo de fada e, através da sua música, contava histórias intermináveis sobre lugares ilusórios e irreais.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Violin solo


Francesca deambula pela rua sombria alumiada apenas por escassos candelabros imanando ténues candeias. Toca suavemente um solo de violino para as poucas janelas abertas e já na escuridão. Emanam dos esgotos pequenos vapores e odores de podridão. Arrasta-se num passo calculado e movimenta-se ao sabor da cadência das notas musicais.
Num quarteirão mais à frente, Gustav ceia um parco repasto. Luta contra as suas entranhas. Não quer mais sangue. Atravessam-lhe pela mente breves clarões de imagens desprovidas de sentido. Simplesmente sabe que transportam sofrimento e dor física.
Decide parar de tocar o violino. Sente a vontade a crescer. Humedece os lábios e suspira. Olha em redor na busca incessante de alguma vítima inocente que possa surgir de uma ruela qualquer. Inspira e desvia o olhar para um canto na penumbra. Algo lhe diz que a resposta às suas preces esconde-se no limiar daqueles dois edifícios.
Não, não e não. Não quer sair daquela taverna. Pega num pasquim que se encontra numa mesa. “A peste negra acumula mortes inumeráveis”. Ri-se sarcasticamente. Se soubessem! Abre as portas e sai em passo alterado.
As suas mãos estão ensanguentadas e da sua boca ainda escorrem gotas de sangue. Terminou. A sua gargalhada é estridente. Com a palma de uma mão limpa os vestígios de quem já não existe. Não cabe em si de júbilo. Torneia o edifício e avança num ritmo melódico. O violino faz-se ouvir.
Gustav encara Francesca. Baixa os olhos em desânimo. Sente-se prostrado. Gostaria de acompanhá-la, mas sabe bem o que significaria e respectivas consequências. Tenta descortinar os belos e meigos olhos de outrora na sua face. Esmorece, pois já não os encontra. No seu lugar, sobressai um esgar irónico e galhofeiro. A música entra-lhe nos ouvidos, todavia entristece a sua alma.
Francesca permanece em silêncio e envereda pela estrada que a conduzirá à mansão. Minutos depois espreita a sua sombra. Gustav desapareceu mais uma vez. Sorri. Algo lhe diz que irão ter um novo rendez-vouz, um outro dia qualquer.

Pieces of my soul


Encontro-me num local estranhamente íntimo

e, no entanto, desconhecido.

Sinto-me observada,

ao mesmo tempo que confortada e protegida.

Encolho-me.

Espero e aguardo pelo silêncio que se entranha no meu âmago.

Questiono-me por onde andarás agora.

Perscruto o lago: reflectem-se imagens de ti.

Brumas e árvores alinhadas numa fila interminável.

Só.

Sinto-me leve, mas curiosa. Não tenho calma.

Anseio a descoberta do que foste, não mais o que és.

Debruço-me sobre mim.

Escuto e ouço o estrondear de uma arma algures.

Nada mexe, porém. Nem eu.

Já não há sobressalto.

Desapareceu no mesmo momento em que fugiste.

Estico-me e abraço o espaço.

Estou aqui, agora.

Nada mais prevalece, a não ser o espelho das lembranças.

Rodopiam e ondulam sob o lago.

Já nem mergulho no seu encalço.

Algo estremece e os meus cabelos agitam-se.

Acaricio-os e sorrio.

Estou pronta para levantar-me e caminhar de novo.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Vamos pensar na personagem: real ou fictícia?


...

Uma vampira é o que me surge neste momento. Sedenta de sangue, dentes aguçados, pronta a atacar. A sua força é descomunal, não há quem a detenha. Quem ainda acalenta essa esperança, já saiu derrotado antes da batalha.
Indumentária vermelha, a condizer com a sua avidez por sangue, bem como pelo que se encontra nas suas entranhas: desejo efervescente, reflexo de uma alma em chamas.
Uma devoradora inata, sem piedade pelos fracos e sem nenhum receio pela própria vida. Determinada e destemida, confronta-se com o incerto e desconhecido ao percorrer as ruas à noite, contornando os muros do cemitério e repousando o corpo nas lajes de uma campa qualquer.
Alvo? Um ser humano aleatório, se bem que os do sexo masculino lhe agucem o paladar. O travo a estupidez e mentira é tão forte que a satisfazem na plenitude! O odor também é penetrante, pestilento e infiltra-se no seu âmago, mas agrada-lhe e inspira profundamente a cada bafejo que lhe chega ao nariz.
Ao mesmo tempo, almeja secretamente encarnar o papel de vigilante, qual polícia de segurança pública, protegendo a população em geral. Ah, ah! Contudo, algo a impede. Esforça-se por romper com a sua natureza cruel e desumana, mas é mais forte do que ela.
O tempo e o espaço  diluem-se para ela e caminha em passo acelerado. Corre desmesuradamente para não pensar muito e com receio de vacilar. Não pode e não quer ir contra o seu ser. Seria o mesmo que trair toda a sua ascendência.
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