domingo, 18 de outubro de 2009

Cadáveres


Esperava pacientemente pela sua chegada. Olhou para o relógio. Tinham combinado às 19h. Verificou outra vez o seu bloco de notas: « Torino’s, 19h». Istambul fervilhava de movimento. Perscrutava as faces de quem passava e procurava, em vão, um sinal. Tinham-lhe dito que dispunha apenas de 10 minutos para a transacção. O tempo começava a escassear.
Como era mesmo o seu nome? Clara? Branca? Bem, era ruiva, isso era um facto. O seu rosto aparentava uma certa fragilidade, mas sabia ser uma falsa aparência. Era perita em máscaras. Não hesitava no gatilho. Matara impiedosamente o assassino do seu marido e filhos. Tinha que apressar-se, o relógio mostrara-lhe o atraso.
Ei-lo. Barba de dois dias, cabelo desgrenhado e olhos pretos desconcertantes. Enfim, chegara a hora. Fez-lhe sinal. Aproximaram-se e trocaram um aperto de mão. Já tinha o que viera buscar. O seu punho fechou-se com força. Lamentava o afastar apressado, porém nada podia reter o seu passo. Lembrou-se, todavia, das suas últimas palavras:
- Não posso, tenho trabalho para fazer.
Que culpa tinha, se os cadáveres falavam consigo? Ainda esgaravatava no deslindar desse trabalho. Sentia-se perto da resposta. Vestígios, pistas, dicas de antigos amigos e colegas. Desconfiara sempre de algo, contudo combatera o seu instinto demasiadas vezes. No fundo, receara a verdade. Não quisera enfrentar a realidade, pois era pior do que imaginara em mil pesadelos. Mesmo não tendo ido ao cerne da confirmação, pouco faltava já para atestar as suas suspeitas.
Ele achava que era um desperdício, ao mesmo tempo que uma loucura. Não augurava nada de bom para ela. Compreendia a sua revolta e luta. Eram até certo ponto, mais do que justificadas. A vida tinha-lhe sido madrasta. Tão jovem e detentora de uma cara que revelava vincadas marcas de sofrimento. Assemelhava-se a um espelho, onde via reflectida a sua alma.
Deslocava-se em tumulto, sentindo o acelerar do coração. Prestes a atingir o seu target. Pressentiu-os antes de a verem. Escondeu-se no vão de uma porta. Passaram a correr, dividindo-se pelas várias ruelas. Respirou profundamente. Podia prosseguir, porém colidiu com ele!
- O que fazes aqui? – perguntou-lhe num sussurro.
– Vim ajudar-te e não digas nada, porque não vou desistir.
Olhou-o fixamente e leu nos seus olhos que era verdade, estava irredutível. Caminharam em silêncio e, num instante, tinham atingido o Bósforo. Os homens no barco já esperavam pela encomenda. Fez-lhes o sinal acordado. Atirou-lhes o pacote e virou as costas. Já terminara a primeira etapa. A partir de agora só tinha que aguardar pelas indicações seguintes. Olhou-o de soslaio: parecia calmo e os seus passos acompanhavam-na.
- O que vais fazer?
- O que os solitários fazem: seguir e auxiliar os seus semelhantes.
Sorriram, ambos olhando para o chão. A vida continuava.

1 comentário:

  1. Adorei, estavas mesmo inspirada. Parabens, e uqe sorte a minha
    beijos

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